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O PROGNÓSTICO DA CARDIOMIOPATIA CHAGÁSICA
Dra. Barbara Maria Ianni A cardiomiopatia chagásica não é uma enfermidade igual em todos os pacientes que acomete. Dados populacionais mostram que a maioria (aproximadamente 60%) dos pacientes estão na forma indeterminada, sendo que 25% têm comprometimento cardíaco, sendo esse comprometimento grave em 10% dos casos. A forma indeterminada é definida como a forma crônica da cardiopatia chagásica na qual os pacientes são assintomáticos, têm reações sorológicas positivas para a doença e apresentam eletrocardiograma, estudo radiológico de tórax e estudo contrastado de esôfago e cólon normais. Os dados de literatura mostram que, com o tempo, esses pacientes desenvolvem alterações eletrocardiográficas, o que não parece alterar o prognóstico.Também é sabido que, se submetermos os pacientes nessa forma da doença a investigação mais sofisticada, serão observadas alterações leves numa parte desses pacientes. Também isso não altera o prognóstico, que permanece bom. Em casuísticas com número expressivo de pacientes e seguimento de dez anos ou mais, não se observaram óbitos 1 . Num seguimento que fizemos de 160 pacientes acompanhados por até 17 anos, observamos que em apenas 9% as alterações eletrocardiográficas que surgiram puderam ser certamente atribuídas à doença. Nenhum dos pacientes desenvolveu disfunção ventricular ao ecocardiograma bidimensional, independentemente de ter ou não apresentado alteração eletrocardiográfica 2 . Portanto, a forma indeterminada da doença de Chagas parece ter características próprias e identidade específica no espectro da fase crônica da doença de Chagas, configurando uma forma de bom prognóstico. Exceto os pacientes na forma indeterminada da doença, os restantes têm seu prognóstico ligado ao grau de comprometimento miocárdico. Pacientes em classe funcional IV têm pior prognóstico que aqueles em classe funcional II. Os pacientes com fração de ejeção de ventrículo esquerdo maior que 50% têm sobrevida maior em relação aos com fração de ejeção de ventrículo esquerdo entra 30 e 50% e com fração de ejeção de ventrículo esquerdo menor que 30%. O mesmo acontece em relação ao consumo máximo de oxigênio, com melhor sobrevida naqueles com valores superiores a 20 mL.kg 1 .min -1 em relação àqueles com valores entre 10 e 20 e, como esperado, com grande mortalidade naqueles que apresentam valores inferiores a 10 (praticamente 100% ao final do primeiro ano de seguimento) 3 . A arritmia, frequentemente ligada à disfunção do ventrículo esquerdo, também tem valor prognóstico, tendo pior evolução aqueles pacientes com arritmias ventriculares complexas, principalmente se disfunção de ventrículo esquerdo está associada. O sexo masculino por si também é um fator de pior prognóstico na cardiopatia chagásica, por motivos ainda desconhecidos 4 . O grau de comprometimento clínico também está relacionado à quantidade de colágeno no interstício miocárdico, sendo que os pacientes com maior deposição de colágeno intersticial têm menor fração de ejeção 5 . Do ponto de vista de citocinas, a resposta também é diferente entre forma indeterminada e formas com maior comprometimento cardíaco. Estes últimos têm maior frequência de linfócitos altos produtores de interferon-gama no sangue periférico em relação aos primeiros. Quanto ao TNF-alfa, os pacientes na forma indeterminada apresentam níveis semelhantes aos pacientes com fração de ejeção de ventrículo esquerdo superior a 50% e níveis menores em relação aos pacientes com fração de ejeção de ventrículo esquerdo inferior a 50%, sendo que, nesses pacientes os níveis são semelhantes aos de pacientes com cardiomiopatia dilatada com o mesmo grau de disfunção. Essas constatações podem também estar influindo no prognóstico dos pacientes, já que estão relacionadas à disfunção ventricular. Existem também outros fatores que influenciam o prognóstico, desde a fase aguda. Crianças infectadas em seus primeiros anos de vida apresentam evolução pior. Isso também é verdade para os pacientes que são continuadamente reinfectados, por viverem em regiões onde a doença não está sob controle. Também aqueles que apresentaram fase aguda mais exuberante parecem evoluir pior. Muito ainda falta conhecer a respeito da cardiopatia chagásica, mas o que se acredita é que múltiplos fatores sejam responsáveis pela etiopatogenia da doença, e portanto, por seu prognóstico. Bibliografia 1. Espinosa R, Carrasco HA, Belandria F, Fuenmayor AM, Molina C, Gonzalez R, Martinez O:Life expectancy analysis in patients with Chagas' disease: prognosis after one decade (1973-1983). Int J Cardiol. 1985;8:45. 2. Ianni BM, Arteaga E, Frimm CC, Pereira Barretto AC, Mady C. Chagas' heart disease: evolutive evaluation of electrocardiographic and echocardiographic parameters in patients with the indeterminate form. Arq Bras Cardiol. 2001;77:59. 3. Mady C, Cardoso RH, Barretto AC, da Luz PL, Bellotti G, Pileggi F. Survival and predictors of survival in patients with congestive heart failure due to Chagas' cardiomyopathy. Circulation. 1994;90:3098 4. Barretto AC, Arteaga E, Mady C, Ianni BM, Bellotti G, Pileggi F. Male sex. Prognostic factor in Chagas' disease. Arq Bras Cardiol. 1993;60:225. 5. Mady C, Ianni BM, Arteaga E, Montes GS, Caldini EG, Andrade G, Giorgi MC,Saldiva PH. Relation between interstitial myocardial collagen and the degree of clinical impairment in Chagas' disease. Am J Cardiol. 1999;84:354.
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