Laboratorios Bagó de Bolivia

FUNÇÃO DIASTÓLICA DO VENTRÍCULO ESQUERDO. NOVOS MÉTODOS DE ESTUDIO

Dr. José Maria Del Castillo
Instituto de Cardiologia de São Paulo
Hospital Santa Paula. São Paulo, SP, Brasil.

Com a ecocardiografia convencional os parâmetros de função ventricular estavam limitados às extrapolações geométricas do ventrículo esquerdo para calcular a fração de ejeção, ou à aferição dos diâmetros da câmara e do tempo de ejeção para o cálculo da porcentagem de encurtamento sistólico e da velocidade de encurtamento circunferencial. A introdução do Doppler possibilitou a análise, do ponto de vista hemodinâmico, de variáveis sistólicas e principalmente diastólicas, de grande importância prática no diagnóstico diferencial das síndromes restritivas, da pericardite constritiva e das miocardiopatias infiltrativas(1), assim como dos estágios evolutivos da doença arterial coronária e das miocardiopatias hipertróficas e dilatadas.

A introdução de equipamentos com melhor resolução de imagem, Doppler tecidual, harmônica, junto com o melhor conhecimento da fisiologia cardíaca e da fisiopatologia, permitem a análise da função diastólica pela associação de várias metodologias Doppler, melhorando sensivelmente a discriminação do método. Entre as metodologias introduzidas mais recentemente, que são associadas à análise clássica do fluxo mitral, temos o fluxo das veias pulmonares, a propagação do fluxo intraventricular ou M-color e o Doppler tecidual(2).

Sem entrar em considerações fisiológicas, podemos definir a diástole, desde o ponto de vista clássico(3), entre o fechamento das valvas semilunares e o fechamento das valvas atrioventriculares. Assim, entre o fechamento aórtico e a abertura mitral ocorre o tempo de relaxamento isovolumêtrico (TRIV). Após a abertura da valva mitral ocorrem, sucessivamente, os períodos de enchimento rápido, enchimento lento e contração atrial. A diástole termina com o fechamento da valva mitral. A utilização em conjunto do Doppler mitral, do fluxo das veias pulmonares, do tempo de propagação ventricular e do Doppler tecidual permite a avaliação minuciosa da função diastólica e a separação dos diversos tipos de disfunções (alteração do relaxamento, restritiva e pseudo-normalização).

Tempo de relaxamento isovolumêtrico (TRIV): o TRIV começa com o fechamento da valva aórtica e termina com a abertura da valva mitral. Pode ser facilmente determinado pelo Doppler, posicionando-se o volume-amostra do Doppler pulsado ou a linha do Doppler contínuo entre a valva mitral e a via de saída do ventrículo esquerdo.

Alteração do relaxamento diastólico(4): A alteração do relaxamento diastólico do ventrículo esquerdo, quer seja provocada por doença coronariana crônica, hipertrofia miocárdica, hipertensão arterial ou mesmo fisiológica em pacientes idosos, modifica o padrão de enchimento ventricular. A fase de enchimento ventricular rápido, processo ativo dependente de energia (no qual os íons de cálcio liberados pela troponina durante a contração retornam a contragradiente para os miócitos) encontra-se alterada, não mais conseguindo produzir um enchimento ventricular adequado.

Isto se traduz por aumento do TRIV (mais de 100 ms). No fluxo mitral há aumento do tempo de desaceleração da onda E (segmento E-F, maior que 240 ms). Aumenta, também, o tempo de aceleração (segmento D-E). Devido à diminuição do enchimento nesta fase, o átrio esquerdo se contrai mais energicamente, aumentando a amplitude da onda A, tornando a relação E/A menor que 1,0.

No Doppler tecidual observa-se diminuição da velocidade da onda E' (menor que 8,0 cm/s), com inversão da relação E'/A' (menor que 1,0). O fluxo de propagação (Vp) apresenta diminuição da velocidade (45-55 cm/s). A relação entre a velocidade da onda E mitral e a velocidade de propagação tem sido usada para estimar a pressão atrial esquerda(6):

Pressão do átrio esquerdo = 5,27 (E/Vp) + 4,6 mmHg

Isto se baseia nas seguintes premissas: as principais determinantes da velocidade da onda E mitral são a pressão do átrio esquerdo e o relaxamento do ventrículo esquerdo. Existe uma relação linear negativa entre a Vp e a constante de tempo de relaxamento (tau). Indivíduos normais apresentam velocidade da onda E e Vp elevadas. Alterações do relaxamento com pré-carga normal (Pd2VE normal) apresentam diminuição da velocidade da onda E e da Vp, mantendo uma relação E/Vp semelhante à dos indivíduos normais.

No fluxo das veias pulmonares a duração da onda A mitral é maior que a duração do fluxo reverso atrial se a pré-carga (Pd2VE) for normal. A velocidade do componente sistólico torna-se nitidamente maior do que a velocidade do componente diastólico.

Fase de pseudo-normalização(5): O agravamento da disfunção diastólica provoca aumento da pressão do átrio esquerdo, que produz a abertura prcoce da valva mitral com a conseguinte diminuição do TRIV (entre 60 e 100 ms) e aumento da velocidade da onda E mitral, tornando a relação E/A igual ou maior que 1,0. O aumento da pressão intraventricular produz diminuição do tempo de desaceleração da onda E (160-200 ms). Daí o termo "pseudo-normalização".

No fluxo das veias pulmonares, a velocidade e o tempo do fluxo reverso atrial aumentam (velocidade maior de 35 cm/s), passando a ser a duração da onda A mitral menor do que a duração do fluxo reverso atrial. A velocidade do componente diastólico passa a ser maior do que a velocidade do componente sistólico.

A duração da onda E' do Doppler tecidual diminui (menos de 8,0 cm/s) e a relação E'/A' diminui (menos de 1,0). A velocidade de propagação diminui ainda mais, ficando abaixo dos 45 cm/s.

Como vemos, a avaliação do fluxo das veias pulmonares, do Doppler tecidual e da velocidade de propagação muito contribuem para separar os verdadeiramente normais dos pseudo-normais.

Disfunção diastólica restritiva: Constitui o estágio mais avançado da disfunção diastólica onde, ademais do importante aumento da pressão atrial esquerda, há a diminuição da complacência ventricular. O TRIV encontra-se diminuído (menos de 60 ms), o tempo de desaceleração da onda E mitral está muito diminuído (menos de 150 ms) e a onda A é pequena, tornando a relação E/A muito aumentada (maior que 2,0). A onda A pequena é conseqüência da incapacidade da força de contração atrial produzir o enchimento ventricular esquerdo com grande diminuição da complacência.

O fluxo das veias pulmonares revela aumento da velocidade do fluxo reverso atrial (maior de 35 cm/s), duração da onda A mitral menor do que a duração do fluxo reverso atrial e nítida diminuição da velocidade do componente sistólico em relação à velocidade do componente diastólico.

A velocidade de propagação encontra-se diminuída (menos de 45 cm/s).

O Doppler tecidual evidencia diminuição da velocidade das ondas E' e A', com relação E'/A' diminuída (menor de 1,0).

Índice de performance miocárdica: Este índice expressa o desempenho ventricular global, tanto sistólico quanto diastólico, empregando a relação entre os intervalos sistólicos e diastólicos determinados pelo Doppler.

A disfunção sistólica aumenta o periodo de pré-ejeção (ICT) e encurta o tempo de ejeção (ET). A disfunção, tanto sistólica quanto diastólica, alteram o relaxamento miocárdico, prolongando o tempo de relaxamento isovolumêtrico (IRT). O valor normal do índice de performance miocárdica varia entre 0,34 e 0,44 e parece ter importante valor para a avaliar o desempenho do ventrículo direito.

Bibliografia

1. Plotnick GD, Vogel RA. Noninvasive evaluation of diastolic function: Need for hemodynamically and clinically relevant variables. JACC 1989, 13:1015.

2. Souza ACS. Novos métodos de avaliação da função diastólica. Revista Brasileira de Ecocardiografia 2001, 14(3):13.

3. Grossmann W, McLaurin LP. Diastolic properties of the left ventricle. Ann. Int. Med. 1976, 84:316.

4. Appleton CP, Hatle LK. The natural history of left ventricular filling abnormalities: assessment by two-dimensional and Doppler echocardiography. Echocardiography 1992, 9:437.

5. Oki T. State of the art: "Diastology" research. J. Med. Invest. 1998, 45:9.

6. Garcia MJ, Ares MA, Asher C et al. An index of left ventricular filling that combined with pulsed Doppler peak E velocity may estimate capillary wedge pressure. JACC 1997, 9:448.


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